11 de maio de 2017

Diversificando os espaços do brincar


Vamos fazer comidinha?
Imagem Dulci Dantas


No post Como organizar brinquedos, mostrei fotos aqui de casa, da estante de brinquedos da minha filha e como os guardamos. Além do quarto dela, criei um outro ambiente de brincadeiras na área de serviço, ao lado da cozinha. Com apenas um ano e meio de vida, Melina ganhou esta cozinha de presente de Natal. Ela adorou, e até hoje brinca bastante com ela. 

A dica para colocar essa mini-cozinha na área de serviço veio de uma amiga minha. O filho dela também tem uma cozinha igual, e enquanto ela fazia o almoço, o menino brincava de fazer comidinha. Achei genial, e aceitei a dica. Todas as vezes que eu ia cozinhar o almoço, Melina ficava pedindo minha atenção. Com essa nova área de brincadeiras pertinho da cozinha, tudo mudou. Enquanto eu cozinhava o almoço, ela brincava de fazer comidinha no fogão dela. 

Contudo, o fogão traz um grande número de componentes como panelas, bule, xícaras, pratos, talheres, saleiro e pimenteiro. Melina espalhava tudo pela área de serviço. Depois de servir o almoço e lavar a nossa louça (a de verdade), eu tinha que ficar catando aquela "segunda louça" espalhada no chão. Foi aí que eu tive uma idéia de utilizar uma cestinha que eu tinha no meu banheiro (coincidentemente da mesma cor do fogão), para guardar toda a "mini-louça". Levou um tempinho para eu educar a minha filha para, ao terminar de brincar, recolher todas as peças da brincadeira dentro da cestinha. Mas logo ela entendeu, e hoje fica fácil pôr ordem na bagunça da cozinha dela.





Acima, vocês podem ver à esquerda como o fogão deveria ficar montado. Qual a chance de uma criança de dois anos colocar todos os itens nos seus devidos lugares? Já na foto da direita, como o brinquedo fica guardado no dia-a-dia. Muito mais fácil, prático e ao alcance da criança. 


A cesta funciona como um escorredor de pratos. Acabou a comidinha? Vai tudo pra cesta.
Imagem Dulci Dantas


Cestinha básica comprada na Multicoisas. 
Imagem Dulci Dantas


Uma vez por mês, eu chamo Melina para limparmos o fogão - tarefa que ela adora! Passamos um paninho úmido por todo o fogão, tiramos todo o pó que acumula. E, depois, vamos para a pia da cozinha lavar toda a "louça". Melina tem um avental do tamanho dela que eu comprei na feira, para utilizar durante a função.  Lavamos tudo e colocamos na cestinha para escorrer e secar. É uma atividade que ela curte e que ensina a ter zêlo pelo brinquedo, além de educá-la para a sua própria vida doméstica futura.

A idéia de diversificar os espaços do brincar da criança é muito válido. É uma ilusão pensar que ela vai brincar somente no quarto dela. E, para evitar que toda a casa vire um playground, com brinquedos espalhados por todos os cantos, o ideal é criar espaços bem delimitados e organizados para as diversas brincadeiras. As crianças entendem bem esses limites quando, uma vez dentro deles, são livres para brincar. Em outras palavras, quando Melina está na cozinha dela, pode espalhar colheres, copinhos, pratos e panelas. Mas estes dificilmente vão para a sala ou para o quarto. Com isso, a criança brinca livre dentro do espaço definido pelos pais e, depois que termina a brincadeira, fica fácil para ela e para os pais recolherem tudo e recolocar as coisas no seu devido lugar.



25 de abril de 2017

Memória afetiva

É no cotidiano que construímos nossas memórias afetivas.
Imagem Dulci Dantas



Nas últimas semanas tive contato com fatos interessantes na vida de duas amigas. Uma delas, médica em missão com os Médicos sem Fronteiras, relatou a dura e triste realidade das crianças atingidas - no corpo e na alma - pela guerra no Iraque. A minha outra amiga, vizinha e mãe de uma amiguinha da minha filha, foi chamada na escola. Com o coração apertado, ela foi conversar com a professora. O que seria? A escola queria conversar com a mãe porque a pequena estava abraçando demais os coleguinhas. Alguns ficavam até bravos, pois a menina abraça com gosto, abraço de alegria, de afeto, de carinho. Quando ela e minha filha se encontram sempre rola o maior abraço de felicidade. A minha amiga, um pouco atônita, compartilhou essa experiência no perfil dela em uma rede social. Eu, que acabara de ler o relato da minha primeira amiga médica, respondi para minha amiga vizinha:"O mundo vai ter que se acostumar com o Amor!".

De um lado do mundo a infância que chora. Do outro lado, a infância que abraça. Quando foi que abraçar virou problema de disciplina escolar? Não consegui resistir a juntar os dois acontecimentos, misturá-los dentro de mim e fazer a seguinte pergunta: É possível que, num mesmo mundo, crianças sejam repreendidas por abraçar os amigos, enquanto outras morrem asfixiadas por efeito de armas químicas?

Tudo isso me fez refletir ainda mais sobre um assunto no qual venho pensando há tempos, desde que minha filha nasceu: Memória Afetiva.

O nascimento dos filhos parece ter o poder de resgatar do fundo de nós camadas sedimentadas de sentimentos, sensações e experiências. Desde o primeiro momento de vida de Melina, me senti profundamente responsável por criar as condições mais favoráveis para que ela possa construir suas próprias memórias afetivas, de maneira positiva e saudável. E então descobri que isso envolve tudo: A vida com todas as suas facetas, todos os dias e momentos de convivência, e também de ausência. Desde a maneira como você desperta a criança pela manhã e lhe dá bom dia. Os alimentos que você oferece a ela, e como compartilha as refeições em família. O contato visual que fazemos com a criança, quando ela precisa se sentir segura, reconhecida, vista. O tempo que dedicamos a estar com ela e conhecê-la. Os cuidados no vestir, no banhar, no ninar, no acolher. Em como transformamos momentos simples e cotidianos em memórias da infância de um ser humano, que nós decidimos trazer para o mundo. Memórias que fundam a base emocional, que escrevem os primeiros capítulos de uma história de vida. Foi então que o relato da minha amiga médica me impactou de uma maneira profunda. O que está sendo impresso na memória afetiva das crianças que têm sua infância agredida pela guerra? 

Mas, se nem todos nós podemos atuar diretamente para amenizar as dores do mundo, podemos sim contribuir para que as nossas crianças construam suas memórias afetivas de maneira saudável e feliz. Como ajudá-las a criar essa base emocional que sustentará os adultos que elas serão? 

Devemos ter em mente que a rotina, bem como a sua quebra, pode gerar memórias afetivas aconchegantes, nas quais estes seres humanos se reconfortarão e sustentarão durante toda a sua  jornada. Estar presente e atento ao momento vivido é fundamental para criar valor emocional a partir  de atitudes aparentemente simples, e até repetitivas do nosso cotidiano: A lembrança de um pai que chega sempre acompanhado do melhor cheiro de pão quentinho do mundo. A mãe que oferece o abraço perfumado na saída da escola. A visão das folhas dançando ao vento, no vai-e-vem do balanço da pracinha. O gosto salgado de uma praia que marcou todo o corpo, todos os sentidos, durante as férias. A sensação refrescante e alegre de pular em poças d'água em um dia quente de verão. A lembrança de músicas cantadas dentro do carro ao ir para a escola ou durante uma viagem.


Felicidade é pular em poças d'água.
Imagem Dulci Dantas



Infelizmente, a infância do nosso tempo é constantemente ameaçada por guerras, violência, abandono, pobreza extrema e negligência. Mesmo a infância privilegiada, a que está livre destes problemas agudos, tem sido muito privada da convivência com os pais e da vivência de momentos simples e prazerosos. A pressa, a ausência, a ansiedade, o trabalho excessivo, a falta de tempo, a tecnologia viciante são elementos nocivos a construção de momentos saudáveis, capazes de imprimir felicidade, auto-estima e segurança na memória afetiva de nossas crianças.


19 de abril de 2017

Um bom lar para toda a vida


Imagem Dulci Dantas



"E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus."  
Fabrício Carpinejar em Todo filho é pai da morte de seu pai.



Em seu belo, porém atordoante texto Todo filho é pai da morte de seu pai, Fabrício Carpinejar abraça e revela um cenário que parece ser o cotidiano de um número cada vez maior de famílias: O envelhecimento dos pais. Depois que meu pai e meus sogros envelheceram, enfraqueceram, adoeceram e ficaram acamados, descobri que quase todo mundo tem uma história parecida para contar. E, após viver essa experiência três vezes - primeiro com minha sogra, meu pai e por último meu sogro - e depois de conversar com pessoas que viveram situações semelhantes, posso dizer que tive um aprendizado especial para a minha vida. Um deles foi sobre a importância de cuidar do nosso lar até o fim e, principalmente, para que possamos ter um bom fim. 

Quando nos casamos e constituímos uma família, a casa cheira a nova. Móveis novos, pintura nova, tapetes novos. Enxoval novo. A vida passa, as décadas voam e a casa se desgasta. É normal. Algumas pessoas tem espírito "zelador", como meu pai tinha. Zelador na profissão e também na sua vida doméstica, meu pai mantinha a casa sempre impecável. Pintava todos os cômodos a cada três anos. Mandava forrar sofás que rasgavam, consertar eletrodomésticos que pifavam ou substituía-os por novos. Não era rico - longe disso - mas era muito cuidadoso e amoroso com seus pertences. Eu costumava dizer que ele era o verdadeiro "dono de casa" da nossa família. 

Essa característica do meu pai garantiu a ele um final de vida com a melhor qualidade de cuidados e habitação possível. Meu pai morreu em casa, como era seu desejo. Já acamado, só saía de casa em cadeira de rodas. Mas seu quarto era impecável. Lençóis de cama sempre cheirosos e passados. Comida boa e caseira, feita na hora. Um banheiro sempre limpo e sem o menor traço de qualquer odor desagradável. Roupas limpas, cabelo lavado, bem penteado, unhas sempre cuidadas. Mas, uma boa parte dessa condição de vida com qualidade, apesar do estado de saúde debilitado devido a um AVC, se devem aos cuidados da família e as condições de moradia que possibilitavam que os cuidados fossem exercidos adequadamente. 

Mas, infelizmente, não acontece assim com todo mundo. Com o passar do tempo e o pesar da idade, muitas famílias vão deixando de lado pequenos reparos e cuidados com a casa. Acham difícil promover uma pintura nova, não atualizam os eletrodomésticos, vão se habituando a móveis e objetos quebrados e, assim, vão levando os dias. É mais comum do que se pode imaginar, encontrar idosos vivendo em residências absolutamente precárias.

É muito difícil para aqueles que não estão vivendo situações de cuidados especiais com idosos, imaginar o quão importante é ter uma casa em dia com sua infra-estrutura, mobiliário e objetos de uso diário. O envelhecimento dos nosso familiares nem sempre é percebido em um primeiro momento. Às vezes, levamos anos para entender e aceitar que nossos familiares, de fato, estão velhos e, em muitos aspectos, incapazes de realizar certas funções e tarefas. Há cinco anos atrás escrevi a este respeito no post A Vida em Transformação. Mas, quando nos deparamos com a necessidade de instalação de equipamentos médicos e cuidados em domicilio podemos ter um choque de realidade. Pois, muitas vezes, percebemos que a casa não está em condições plenas de operar com essa nova condição de vida. 


"Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?".  Fabrício Carpinejar em Todo filho é pai da morte de seu pai.


No que diz respeito ao lar e as condições de habitação, a instalação de um homecare exige um bom funcionamento e aparelhagem da cozinha, banheiros e área de serviço. Se a casa possui uma destas áreas em mau estado, os cuidados e o trabalho de familiares e profissionais, tais como acompanhantes, cuidadores e enfermeiros, ficarão prejudicados.  

Em primeiro lugar devemos fazer a seguinte avaliação geral: A casa está em condições de habitação segura, satisfatória e higiênica para o idoso e para empregados, acompanhantes e cuidadores? A seguir apresento requisitos básicos de alguns cômodos e aspectos da casa que devem ser observados e providenciados.

O banheiro.
Verifique se o aquecimento funciona, se há um bom volume de água nas torneiras e descargas. Providencie tapetes antiderrapantes. Veja se é necessário instalar barras de segurança dentro do box. Cortinas no box são perigosas pois são um falso ponto de apoio. Dependendo da condição de saúde, talvez seja necessário remover o box, para que a cadeira de banho possa ser movimentada dentro do banheiro.
Observe em que condições estão os objetos e produtos de toalete do idoso. Toalhas, pentes, tesouras, cortadores de unhas, lixas, barbeadores, secador de cabelo, saboneteira, shampoos, cremes hidratantes, cremes dentais. Na contratação de um cuidador, ele solicitará todos estes itens. Muitas vezes, os filhos precisam ir correndo na farmácia fazer uma compra de higiene básica para que o cuidador possa trabalhar, sobretudo quando os pais, muito velhinhos, moram sozinhos há muitos anos. 

A cozinha.
Verifique se a geladeira está em condições ideais de manter a comida preservada para que não haja  risco de contaminações. Para uma pessoa idosa ou doente, uma intoxicação alimentar pode ser fatal. É possível reservar uma prateleira da geladeira para a alimentação especial do idoso, evitando assim que potes sejam abertos ou mexidos por engano.
Verifique o estado geral do fogão, se todas as bocas funcionam. Forno de microondas e liquidificador são eletrodomésticos importantes para dietas líquidas ou sopas, muito frequente na dieta de idosos. Bem como uma boa e segura panela de pressão - justamente para cozinhar sopas com maior eficiência e rapidez. Um jogo de panelas básicas e alguns potes para armazenar comida na geladeira, preferencialmente de vidro, pois são mais fáceis de serem higienizados. Uma bandeja para alimentação na cama, se for o caso. Uma louça simples mas adequada ao tipo de alimentação que o estado de saúde exige, como um prato fundo para sopas, potes, canecas fáceis de ser seguradas por mãos frágeis e enfraquecidas. Guardanapos que possam servir de babador e jogos americanos são muito úteis.

Abastecimento de água.
Verifique a origem da água que se ingere na casa. Verifique se os filtros são limpos com frequência, ou os aparelhos onde são acondicionados garrafões. Estes últimos costumam acumular poeira no seu interior.
Uma moringa para água é essencial. Tenha uma daquelas cujo copo serve de tampa, mantendo a garrafa sempre fechada. São muito úteis para se deixar próximo ao idoso, pois nessa fase da vida é comum perder a sensibilidade para a sensação de sede. É preciso oferecer água com frequência, e com a garrafa por perto evita-se o esquecimento e a desidratação.

Área de serviço.
Um cômodo de extrema importância, pois com pessoas idosas ou doentes, sobretudo se acamadas, há uma rotina de faxina além de lavanderia e passadoria de lençóis, fronhas, todo tipo de toalhas e panos de limpeza. Por isso, tente manter a área de serviço destralhada, com espaço livre para trânsito e para um bom desempenho das tarefas necessárias.
Uma máquina de lavar roupas eficiente e em bom estado é imprescindível, bem como um varal e um tanque, este último para deixar roupas e panos de limpeza de molho. As vezes que presenciei o uso mais intenso de uma máquina de lavar roupas em uma casa coincidiram justamente com os extremos da vida: Com o nascimento de um bebê, e com uma pessoa idosa no fim da vida. Acreditem em mim.

O lixo.
Tenha de duas a três latas de lixo médias com tampa. Evite latas de lixo pequenas porque elas não dão conta do recado, além de deixar escapar odores desagradáveis e exigir que sejam trocadas várias vezes ao dia. Uma para o lixo orgânico da cozinha, outro para recicláveis e, se o idoso utilizar fraldas geriátricas, tenha uma lata de lixo somente para este fim, com sacos plásticos em tamanho suficiente para acondicioná-las, bem como lenços umedecidos, papel higiênico e demais materiais descartáveis utilizados para a higiene da pessoa.
Se houver utilização de material médico como sondas e seringas, por exemplo, é necessário um descarte especial. Informe-se como descartar esse material corretamente para não ocorrer contaminação e acidentes com as pessoas que manuseiam o lixo, como a própria família, a empregada ou diarista, os cuidadores e empregados do prédio e lixeiros.
E ainda, certifique-se de ter uma rotina eficiente de saída do lixo, para que não se transforme em um bota-fora contínuo durante o dia e a noite. 

A faxina.
Verifique o arsenal de faxina da casa. Vassouras, rodos, panos de chão, pás, baldes, bacias, prendedores de roupas e produtos de limpeza. A rotina de uma casa onde reside um idoso acamado não combina com sujeira nem desorganização. É preciso ter condições de realizar uma boa limpeza  na casa. 


Em suma, idosos deveriam residir em lares em boas condições de limpeza, infra-estrutura e funcionamento. Mas, infelizmente, nem sempre isso acontece. Muitos idosos passam a residir sozinhos, às vezes sem uma empregada ou diariarista sequer que os auxiliem com faxina e cuidados com a roupa. Nem sempre os filhos são tão presentes como gostariam ou deveriam, devido a atribulada vida de nossos tempos. Ou porque lidar com a velhice dos pais é muito difícil. Ou ainda, porque os pais são teimosos e não aceitam nenhum tipo de interferência na casa, o que é normal, uma forma de tentar manter a autoridade e poder sobre a própria vida até o último minuto possível. Por todos estes motivos, e outros tantos, a residência de pessoas idosas e suas condições de vida podem se tornar muito precárias na reta final, prejudicando enormemente a qualidade dos cuidados necessários. 

Que esta troca de experiência sirva de inspiração - e força - para aqueles que, nesse momento, trocaram de lugar com seus pais, sogros e avós. Aqueles que, sendo jovens, cuidarão de seus velhos. E que o lar continue sendo acolhedor e seguro em todas as fases da vida.



*Este post é dedicado com carinho para minha querida Lucie, meu amado pai Cesário, meu adorado sogro Stephan e meu tio Germano... pela riqueza da convivência e por terem proporcionado preciosas lições de vida até o último momento.



17 de abril de 2017

Sobre estar presente


Com Melina aprendi a ser presente.
Imagem Dulci Dantas


Um dos hábitos mentais que mais me rouba energia e me faz sofrer é a falta de presença. É como se meus pés ocupassem um lugar e a minha cabeça estivesse muito longe dali. Levou um bom tempo para eu perceber como minha mente sempre habitava um lugar diferente daquele que meu corpo ocupava espacialmente. Na verdade, foi graças a um outro ser humano que eu pude  perceber essa desconexão entre corpo (presente) e mente (ausente). Depois disso, constatei com muito choque que passei anos andando por aí sem sequer ver as pessoas que cruzavam meu caminho. 

Com a chegada de Melina em minha vida fui chamada a estar presente - de corpo, coração e mente - o tempo todo. No começo foi muito cansativo e desgastante. Minha mente queria sair correndo o tempo todo, mas meu corpo estava sendo convocado a desempenhar tarefas dentro de um raio muito curto e limitado. Eu, tão acostumada a viajar pelo mundo e com tantas distrações disponíveis para minha mente, estava agora enraizada em casa, com um bebê que solicitava toda minha atenção e foco, por nada menos do que vinte e quatro horas por dia. 

Certa vez, conversando com minha professora de yoga, comentei com ela que, apesar de não conseguir fazer a prática por causa da incompatibilidade de horários, nunca na vida eu tinha praticado o "estar no momento presente" com tanto afinco. 

O processo todo foi - e às vezes ainda é - muito doloroso, porém revelador. Consegui perceber que, parte dos devaneios da minha mente se deviam a cobranças que eu criei para minha própria vida. Se eu estava no fogão cozinhando, a minha cabeça saía correndo para um lugar imaginário onde eu deveria estar trabalhando e ganhando dinheiro, pois eu disse a mim mesma - e acreditei com firmeza - que isso era abandonar "tudo", minha carreira. Se eu estava na pracinha empurrando o balanço, minha cabeça começava a me atormentar porque eu não estava no salão fazendo as unhas, porque eu repetia para mim mesma, com insistência, que eu tinha que estar apresentável o tempo todo, para todos. E se eu estava trocando fraldas, dando banho, arrumando, lavando... minha mente me dizia que eu deveria estar lendo livros. E se eu estava acordada, ela me dizia que eu deveria estar dormindo. E quando eu me deitava para dormir, ela insistentemente me dizia que eu estava jogando tempo precioso fora, deveria ir para algum outro lugar, fazer alguma outra coisa. E assim era a todo instante, em cada lugar que eu punha meus pés, minha cabeça se recusava a aceitar e queria sair dali para outro canto.  


O céu que nos protege.
Imagem Dulci Dantas


Com o passar do tempo, ao longo de mais de dois anos de prática, aprendi a ficar onde meus pés estavam. E foi um assombro enorme, pois nesse dia eu vi o céu, árvores, nuvens, pessoas, "bons dias", uma cidade inteira. De repente uma vida que estava acontecendo ali, bem na minha frente, com olhos vivos e sorriso de dentes de leite. E eu, apesar de todas as infinitas possibilidades, lugares e informações acessíveis, estava apenas aonde meus pés se plantavam, respirando e vivendo. 


10 de abril de 2017

Coelhinho da Páscoa

"Que trazes pra mim?"
Imagens Dulci Dantas 


Na Páscoa do ano passado, minha filha tinha apenas um ano e oito meses de idade. Não seria exatamente uma Páscoa recheada de chocolates, embora ela tenha, pela primeira vez, experimentado dois pequenos ovinhos (essa foi a cota estipulada por nós). Mesmo assim, eu queria criar algo que permitisse a ela comemorar a data festiva. Mas o que fazer para um bebê curtir a Páscoa sem se empanturrar de chocolate?


Siga as pegadas!
Imagem Dulci Dantas


Vi esta idéia em uma revista - cujo nome não me recordo mais, e decidi eu mesma produzir a brincadeira. Foi muito simples. Na véspera da Páscoa, a noite, eu deixei tudo pronto em apenas duas horas. Pela manhã, quando ela acordou e viu as pegadas de coelho pela casa, foi logo tratando de segui-las até chegar na caixa-coelho. Teve a maior surpresa! Ela vasculhou a caixa até conseguir tirar os três balões lá de dentro, e passou o resto do dia brincando com a caixa e os balões. 


Desenhe os olhinhos, os bigodes e a boca com os dentões. Tenha um pouco de paciência ao fazer o recorte da boca. Pode desenhar o nariz ou colar um triângulo feito de cartolina cor-de-rosa.
Você decide como desenhar a carinha do coelho.
Imagem Dulci Dantas



Cole um pedaço da cartolina cor-de-rosa dentro da folha de cada orelha. Se quiser, pode fazer duas pequenas dobras na base das orelhas para dar volume a elas, como eu fiz.
Imagem Dulci Dantas


Para fazer essa brincadeira você vai precisar do material abaixo:

* 01 caixa de papelão (você pode conseguir uma gratuitamente em supermercados e quitandas);
* 02 a 03 folhas de cartolina branca, vai depender do tamanho da caixa que você vai forrar;
* 01 cartolina cor-de-rosa para fazer o interior das orelhas e o nariz;
* 01 caneta pilot de ponta grossa ou tipo "atômico";
* 03 balões nas cores "Azul, Amarelo e Vermelho também"
* Tesoura ou estilete;
* Cola branca para papel;
* As pegadas de coelho eu comprei em uma loja de artigos para festas. Elas são auto-adesivas. Aqui em São José dos Campos eu achei na loja Catavento.


Certifique-se que a caixa tem um tamanho bom para acomodar os três balões dentro dela.
E a abertura da boca deve ser generosa para que os balões passem sem estourar. Para isso, não encha demais os balões.
Imagem Dulci Dantas


Não se preocupe se a forração da caixa ou o traço do desenho não estiverem perfeitos. O meu coelho não estava! A lateral da caixa que eu forrei deu algumas bolhas, porque usei cola demais. E um dos bigodes ficou com traço meio borrado, mas nada disso teve importância. Eu garanto que as crianças nem reparam nestes detalhes. Não deixe de tentar fazer a brincadeira porque você acha que não sabe desenhar ou por puro perfeccionismo. O que vale é o amor e a dedicação. Isso sim, nossas crianças percebem e amam.

Feliz Páscoa!!!


24 de março de 2017

Mudando dos pés a cabeça

Dá pra manter o charme e um pouquinho de glamour na pracinha, ainda que nos pés.
Imagem Dulci Dantas


No post Adaptando e Reduzindo o Closet, eu falei sobre como a minha opção por deixar o trabalho para cuidar da minha filha em período integral impactou o meu estilo de vestir. Mas confesso a vocês que onde eu primeiro senti a necessidade de mudança foi nos pés, quero dizer, nos sapatos. 

Quando me tornei mãe, passeava diariamente empurrando o carrinho pelas ruas até a pracinha. Voltei a andar a pé, prática que eu havia abandonado aqui em São José dos Campos, pois só andava de carro. Então optei por usar sapatilhas e, no máximo, um salto estilo anabela. Depois que o bebê "desceu do carrinho", eu "desci do salto". Logo eu, que usei salto até para ir para a maternidade.  Eu estranhei. Meu marido estranhou também, porque estava muito acostumado a me ver sempre encima de saltos, tanto para trabalhar como para passear. Mas como eu ia correr atrás da criança, quando ela disparava pela pracinha ou pela rua? Como eu ia entrar no parquinho de areia? Caminhar pela grama com a pequena? E carregar os doze quilos no colo na volta para casa? 

Sou daquelas mães que leva a criança para passear e deixo ela brincar, se sujar, rolar. Fico desesperada quando vejo uma mãe ou um pai levar a criança no parquinho, e dizer para ela com voz brava: "Não pisa na areia para não sujar o seu sapato!". Ué? Porque levou a criança então? Para olhar as outras brincando? Como é possível pisar na areia e impedi-la de entrar nos sapatos?

Por esses motivos todos precisei adaptar meus pisantes. Os passeios mais gostosos com a Melina eram, e continuam sendo, ao ar livre, em parques, jardins, pracinhas e praias. Quase não frequento o shopping com ela. Foi uma verdadeira mudança de cenário na minha vida. Eu, tão urbana, passei a frequentar a natureza. E, com isso, troquei de sapatos literalmente. Decidi que era hora de me adaptar a esta nova fase da vida - na mente, no corpo, no closet e na sapateira, para então curtir bons momentos junto com minha Melina.

Eu não curto tênis. Para mim é um calçado para academia e atividades esportivas. Nunca me sinto arrumada de tênis, e acho que ele me engorda porque encurta minhas pernas. Apesar de ser carioca, gosto de chinelos só para ir a praia, piscina ou em casa. Rasteirinhas, para mim, são como Havaianas. Então o jeito foi optar pela sapatilha. Primeiro, eu destruí uma sapatilha linda indo a pracinha. De tanto pisar na areia, na grama, na lama... a sapatilha se foi. Um dia, por acaso, vi uma sapatilha da Melissa que era, ao mesmo tempo, prática, resistente, confortável e charmosa. Depois das aventuras com a pequena Melina, era só chegar em casa e enfiar a sapatilha dentro do tanque e jogar água. Ficava novinha em folha!


Dupla dinâmica: Crocs e Melissa. Prontas para o que der e vier.
#melinaandme #nósduas #semprejuntas
Imagem Dulci Dantas

Com a pequena não foi diferente. Precisei penar um pouco até descobrir que os sapatos perfeitos para Melina são um par de Crocs, para as atividades mais radicais, e uma Melissinha para os momentos menininha, com possibilidade de sapequices. A idéia é exatamente a mesma da sapatilha. Quando ficam muito sujos, jogo no tanque e escovo com sabão de côco e logo ficam prontos para o próximo passeio. Além de fáceis de limpar, tanto o Crocs como a Melissinha são fáceis de colocar e tirar, e a pequena já sabe calçá-los sozinha, apesar da preguiça. Para os dias de chuva, Melina tem uma galocha Crocs, que enfrenta qualquer poça de água ou de lama. Ela se diverte, e eu não esquento a cabeça.


Carnaval das meninas com muito confete e conforto.
Imagem Dulci Dantas


Com essa pequena mudança de estilo eu relaxei muito na hora de sair. Parei de sofrer cada vez que sujava e estragava um sapato de tanto pisar na terra, na água e no mato. Também me libertei da ansiedade, e da conta, de comprar um monte de sapatos para Melina, todos tão fofos mas tão caros! Na verdade, a criança usa muito esses sapatos tipo Crocs e Melissa para brincar. Aqueles outros lindos, tanto tênis caros como os sapatos de festa, acabam sendo usados pouquíssimo, e logo são perdidos porque os pézinhos não páram de crescer. Além de simplificar a sapateira, minha e de Melina, descompliquei também a hora de sairmos de casa, sobrando mais tempo e bom-humor para curtimos nossa vida juntas. 


22 de março de 2017

Organizando bichinhos de pelúcia


Essa é a turma da pesada aqui de casa. Mamãe Dulci arrumou a turma para a foto oficial.
Imagem Dulci Dantas


Na semana passada eu contei para vocês como eu organizo a estante de brinquedos da minha filha, no post Como Organizar Brinquedos. Agora quero mostrar para vocês onde ficam os bichos de pelúcia. Toda criança tem bichos de pelúcia. O tempo passa e os brinquedos se modernizam, mas os bichos de pelúcia permanecem os mesmos em tipo, cores e volume. Quem tem criança em casa, tem um monte deles, gostando ou não. Aparentemente é fácil mantê-los em ordem, mas no dia-a-dia vemos que a rotina é bem outra. As revistas de decoração sempre mostram os bichinhos lindamente organizados em prateleiras, estantes ou nichos. Mas, para mim, não funciona. É mais um daqueles casos de descolamento da vida real e da vida nas revistas. Se a sua criança brinca com os bichinhos, assim como a minha brinca todo santo dia (dizendo "Mãe! Ele é tão fofo!"), precisamos então de um esquema prático e acessível para arrumá-los e guardá-los.

O quarto que, hoje, nossa filha ocupa era o escritório-estúdio do marido antes dela nascer. Com centenas de livros, equipamentos e instrumentos. Mas, com a gravidez e a reforma do apartamento para receber Melina, o marido foi despejado desse quarto para um escritório bem menor no que originalmente seria o quarto de empregada do apartamento. Contudo, alguns estojos de guitarra ficaram de fora, e o jeito foi mesmo deixá-los no quarto do bebê. No começo, nenhum problema. A medida que o bebê foi virando criança, e os bichos de pelúcia começaram a bater na porta aqui de casa, decidi adotar os estojos das guitarras como uma espécie de arquibancada para os novos agregados. Sabe que deu certo?


Vida longa ao rock n'roll! A turma já está na arquibanca de estojos, pronta para o show!
Imagem Dulci Dantas

Na foto acima vocês podem ver que os estojos têm um ar retrô, o que me agradou bastante. O bichinhos ficam assim mesmo como vocês estão vendo. Meio juntos, meio amontoados. Há, inevitavelmente, aqueles dias que eles estão bagunçados mesmo, mas sempre na arquibancada. Melina entendeu, desde cedo, que aí é o lugar deles. Ela tem pleno acesso para tirá-los e empilhá-los do jeito que quiser. Afinal, o quarto é dela e os brinquedos também. Vez por outra, eu dou uma ajeitada neles, arrumo um vestido, penteio um cachorrinho, resgato um ou outro que estavam soterrados.

E, para a nossa conversa ser bem franca, é importante dizer que é possível organizar a casa com crianças dentro de certas limitações. A gente precisa aceitar que não vai ficar com cara de revista o tempo todo, e tudo bem. Às vezes precisamos trabalhar a tolerância e o senso de realidade dentro de nós, os pais, e reduzir nossas ansiedades e expectativas nesse quesito. A foto que vou mostrar a seguir é do mesmo ambiente, só que dessa vez arrumado pela Melina. Não me importo muito que os bichinhos não estejam na sua melhor apresentação, mas o fato dela saber, com menos de três anos, o lugar de guardá-los e, efetivamente, colocá-los lá (ainda que meio atropelados), para mim é suficiente para a fase da vida em que ela está. 

Bichinhos de pelúcia "arrumados e organizados" pela Melina, aos dois anos e oito meses de idade.
Esta foto foi tirada exatamente uma semana depois das fotos que abrem este post, onde eu tinha arrumado os bichinhos. Para mostrar para vocês que organização para crianças é uma questão de educação - planejamento, rotina e aperfeiçoamento. Uma hora eles chegam lá!
Imagem Dulci Dantas


Em um outro post que escrevi, entitulado A organização no cotidiano de grandes e pequenos, publiquei a foto abaixo com uma proposta de organização de bichinhos de pelúcia bem similar a que adotei aqui em casa. Você pode produzir um móvel como este a partir de uma gaveta de cômoda, acrescentando pés de madeira, ou rodinhas, e pintando com uma cor graciosa que combine com o quarto. 




Observe bem este móvel. Parece ter sido feito a partir de uma gaveta de cômoda. Que tal tentar esse projeto?
Imagem via Pinterest.


Um pouco diferente do proposto por ambientes ultra decorados e controlados, que vemos em algumas revistas e blogs de decoração, lidar com a realidade de uma casa que têm crianças, considerando a dinâmica de suas brincadeiras, pode exigir que sejamos mais simples, práticos, criativos, bem como pacientes e tolerantes. Mas não menos lúdicos e organizados.


20 de março de 2017

Adaptando e reduzindo o closet


Meu armário, sem maquiagem, sem produção nem truques de câmeras.
Imagem Dulci Dantas



Tem gente que não acredita. Mas é verdade. Uma estilista - no caso eu - tem um armário de apenas um metro de largura, quatro gavetas e duas prateleiras. Você vai dizer que tenho roupas guardadas em outros cantos da casa, o que não é totalmente mentira. De fato, eu guardo três casacos de inverno e uma bota em outro armário, especial para o inverno. E só.

Verdade que, apesar do ofício no mundo da moda, nunca tive um armário abarrotado. Nunca fui uma compradora compulsiva de roupas, sapatos e bolsas. Depois que minha filha nasceu, meu estilo mudou completamente. Doei uma parte significativa das minhas roupas de trabalho, mais formais e que eu não aguentava mais olhar para elas. Imagina só ir de calça social e scarpin pra pracinha, correr atrás de criança e fazer picnic. Imaginou? Pois é, esse perfil de estilo não cabe mais na minha vida. Precisei adaptar. 



Cada momento com suas particularidades. As diferentes fases da vida pedem atualização no estilo.
Imagem via Pinterest.


Além disso, o preço das roupas no Brasil não está nada acessível. A decisão de sair do emprego para cuidar da minha filha me obrigou a ser ainda mais seletiva, prática, econômica e focada nas compras. Em outras palavras, não está sobrando dinheiro para comprar errado, para comprar por esporte, por puro impulso consumista ou passatempo. Mas, aqui entre nós, que jeito ruim de consumir, não é? Esse jeito inconsciente, que leva nosso dinheiro embora, que abarrota os armários, que só nos deixa mais indecisas na hora de nos vestir, e que nos dá mais trabalho para cuidar, lavar, passar, dobrar e guardar.


No dia-a-dia acabamos sempre vestindo os mesmos "eleitos" de sempre.
Imagem via Pinterest.


Por tudo isso, passei a usar mais as roupas que tenho. Passei a comprar menos e melhor. E, se você se observar direitinho no seu dia-a-dia, vai perceber rápido quais são as suas roupas e acessórios "campeãs de uso". Aquelas peças que você veste e combina "de olhos fechados", e que sempre dá certo. Aqueles sapatos que são "pau pra toda obra", que aguentam o tranco do seu dia sem machucar ou maltratar seus pés. Aquela bolsa que resolve a sua vida. Então... porque ter tantas coisas a mais? 


Com menos roupas e acessórios, percebo que o cuidado e o carinho com as peças são outros. A gente cuida melhor. A gente curte e explora mais as possibilidades de combinações. Na hora de comprar, a gente tem em mente o que já possui para combinar, e erra muito menos. Na hora de viajar, a mala fica pronta em meia hora. Antes, era um tormento para separar o que eu ia levar. Agora não. Levo o que tenho, o que uso todos os dias. Não há mistério.


Importante ressaltar que "menos" não significa "menor". Você pode ter poucas roupas boas, de alta qualidade e incríveis em termos de estilo.
Imagem via Pinterest.


Se você acha que o meu armário (na foto que abre este post) é pequeno, vou logo lhe dizendo que estou doida para retirar, pelo menos, um terço do que você está vendo na foto. São roupas que, apesar de bonitas e novas, na verdade eu não as uso, ou uso tão pouco que não justifica o espaço que ocupam e o trabalho que me dão. Simplicidade é assim. Quanto mais a gente pratica, mais a gente quer se aperfeiçoar. 




18 de março de 2017

Branco no preto


Não são luzes, são cabelos brancos!
Imagem Dulci Dantas


Está se tornando cada vez mais frequente. Pelo menos uma vez por semana eu sou abordada por uma mulher, curiosa para saber como eu fiz "esse efeito" no meu cabelo. Enquanto estou comprando algo ou pagando alguma coisa, percebo que a outra pessoa está olhando fixamente para o alto da minha cabeça com um ar intrigado e curioso. Quando levanto os olhos, e pego a pessoa no flagrante, ela se engasga, tenta disfarçar, mas a curiosidade é tanta que, invariavelmente, ela me pergunta: "Moça... isso no seu cabelo... ", e  fica sem saber como terminar a frase. Não sabe se pergunta se eu fiz luzes "brancas"? "Prateadas"? Ou se é cabelo branco natural. 

Então eu respondo com a maior naturalidade, "é cabelo branco mesmo". E sempre segue o comentário: "Mas ficou tão diferente! Tão bonito!". Algumas pessoas custam a entender o meu cabelo, porque ele é branco em duas mechas nas têmporas, e bem mesclado na parte de trás. Vai da raíz do cabelo até a ponta. A maioria de nós está acostumada a ver mulheres jovens e maduras de cabelos pintados, ou com a maldita raiz branca aparecendo apenas um ou dois centímetros. Somente as muito velhinhas costumam assumir seus cabelos, não mais grisalhos mas completamente brancos. Daí que ver um cabelo grisalho natural em uma mulher de quarenta e poucos anos confunde. Todo mundo acha que é produzido no salão. É que, na verdade, pouca gente viu um cabelo feminino grisalho natural. Mas até que enfim isso está mudando.

Outra coisa que chama a atenção das mulheres é o fato do meu cabelo ser grisalho e ainda ter brilho. Então eu digo a elas que não faço nenhum procedimento químico nos cabelos. Nunca fiz. Nem tintas, nem alisamentos. O resultado disso é que, aos quarenta e três anos de idade, a fibra do cabelo está bem preservada em espessura, brilho e movimento. Além de economizar (muito) dinheiro com pintura, retoque, hidratação e reconstituição da fibra capilar, há também o ganho de um cabelo saudável.


Quando mais grisalho fica, mais eu gosto. Estilo wild and free.
Imagem Dulci Dantas.


Meus primeiros fios brancos começaram a aparecer aos vinte e sete anos de idade. Como eram dois ou três, eu os arrancava. Daí surgiram mais. Eu arranquei também. E então eles começaram a aparecer com uma certa insistência e volume. Os cabelos que eu havia arrancado começaram a nascer espetados, aparecendo ainda mais. Eu já tinha entrado na casa dos trinta. Percebi que seria uma luta em vão. Meu pai e meu irmão mais velho já estavam bem grisalhos. Eu seria a próxima. Minha mãe sempre pintou o cabelo, e ainda pinta. Mas eu, que sempre tive a maior preguiça de ir a salões de beleza, evitei qualquer intervenção nos meus cabelos. 

O tempo foi passando, os cabelos foram ficando cada vez mais brancos e longos, misturando ao restante do cabelo que é de um castanho bem escuro, principalmente depois que me mudei do Rio para São Paulo, e reduzi a exposição ao sol. 



Não entendo quem pinta os cabelos brancos de loiro, como se a cor amarela fosse mais digna que a cor branca. No final todo mundo sabe que ali tem um cabelo branco pintado. Então qual é a idéia?
Imagem via Pinterest.

Aos poucos, fui refletindo sobre o assunto. Eu sempre gostei da cor dos meus cabelos, não conseguia me ver ruiva, nem loira, nem com luzes. Os cabeleireiros insistiam para que eu tonalizasse de castanho. Além da preguiça, eu achava os procedimentos caros demais, além de exigir uma vigilância e manutenção constante. E, a cada vez que eu me olhava no espelho, me achava mais e mais parecida com meu pai, e então descobri que eu gostava disso.

Comecei a observar que a maturidade e seus aspectos mais aparentes, sobretudo os cabelos brancos e as rugas, quando acolhidas com intenção e respeito, dão ao ser humano uma dignidade sutil e verdadeira. Passei então a gostar muito do meu cabelo. Talvez, ainda mais do que quando era uma adolescente com cabelão castanho de fazer inveja. Meu cabelo grisalho me conectava ao meu passado, através de meu pai, e a minha própria experiência de vida. Me sinto mais segura, autêntica e confortável com ele, muito mais do que se tivesse a última tendência em coloração. 

Durante os mais de dez anos que viajei com frequência para a Europa, observei que, por lá, os cabelos grisalhos são mais comuns em mulheres de todas as idades. E são lindos. Além de bem cuidados, eles se apresentam em cortes modernos e até bem ousados. 






Tive um chefe na área de Moda que se incomodava bastante com meus cabelos brancos, e sempre me perguntava se eu não tinha intenção de pintá-los. Algumas vezes ele tentou me intimidar, me chamando de "velhinha", achando que fazia graça. Uma dia eu respondi a ele que não tinha intenção de pintar, e que eu não tinha medo de ficar velha. Então o assunto morreu, para meu sossego. 

Muitas mulheres ainda tem resistência a assumir seus cabelos grisalhos, porque se construiu uma idéia de que deixar os cabelos brancos é sinal de desleixo. Bem, essa é uma idéia incutida nas mulheres, e que presta um grande serviço a bilionária indústria da beleza e estética. Qualquer que seja a cor do cabelo, se ele é lavado, hidratado, bem cortado e arrumado, não tem absolutamente nada de desleixado, mesmo sendo branco. 

O culto a juventude eterna parece não ter fim, mas algumas pessoas já estão se cansando de correr contra o tempo. É como correr encima de uma esteira. Você fica exausto, mas nunca chega a lugar nenhum. Aceitar as impressões do tempo e da experiência de vida no próprio corpo é uma forma de dizer "sim" a si mesmo, e de cultivar o amor próprio sem preconceitos e, sobretudo, esteriótipos.


15 de março de 2017

Como organizar brinquedos


Uma estante simples e ao alcance da criança.
Imagem Dulci Dantas 



Há alguns dias, escrevi um post sobre como tentar criar um ambiente de aconchego e sossego no quarto das crianças, que permita a elas descansarem (leia o texto na íntegra AQUI). E um outro sobre como decorar o espaço dos pequenos, de forma a educá-los para serem organizados (leia este texto AQUI).

Hoje eu trago para vocês algo mais concreto, para além das idéias. Fiz fotos do meu lar e, com elas, trago dicas de como organizamos os brinquedos aqui em casa, na real. Sem produção, maquiagem ou "truques de câmera".

Antes de falarmos de como organizar os brinquedos, vale uma observação importante. Aqui em casa temos poucos brinquedos. Eu compro pouquíssimos brinquedos para Melina. Gosto daquilo que permite brincadeiras mais livres, como bolha de sabão, lápis de colorir, papel, peças de montar, baldinho e pá para brincar na pracinha. A maioria dos brinquedos que ela tem foram presentes de aniversário e Natal. Não faço isso por economia, mas tudo vira brinquedo na mão da Melina, o que coloca a imaginação e criatividade dela para funcionar, muito mais do que entregar a ela um brinquedo pronto. Por esses motivos, nós não temos excessos em casa, o que, por si só, já facilita bastante a organização do espaço.

A estante da foto que abre esse post está aqui em casa há mais de dez anos, e nos servia como estante de livros. Quando Melina nasceu, ela virou a estação central dos brinquedos. Além dela, temos um outro espaço onde ficam os bichos de pelúcia e uma mini-cozinha, que mostrarei para vocês em posts futuros. Como é possível observar, são poucos brinquedos e cada um no seu lugar.


Aos três anos de idade a criança já é capaz de entender conceitos básicos e simples de organização.
Imagem Dulci Dantas.


A maleta de ferramentas foi nosso presente de Natal. Originalmente, este brinquedo vem em uma mala que vira uma mesa, e ainda traz um carrinho de montar. É um brinquedo grande e que ocupa muito espaço. Mas existia a opção de comprar somente as ferramentas, e foi isso que eu fiz. Daí comprei uma maleta em uma loja de construção (a maleta não é brinquedo, é de "verdade"), e coloquei tudo dentro. Todas às vezes que vamos consertar alguma coisa, e o marido puxa a maleta dele, ela sai correndo para pegar a dela. É um brinquedo que ela adora, brinca muito e, apesar de ser composto por várias peças, nunca perdeu nenhuma parte, pois ela sabe exatamente onde guardá-los após terminar de brincar: dentro da maleta.


Não é necessário centenas de peças de montar. Com algumas poucas peças a imaginação da criança é capaz de criar mundos.
Imagem Dulci Dantas


A mesma idéia se dá com os blocos de montagem. Eles vieram dentro de um saco, mas eu peguei uma caixa de sapatos que eu tinha guardada e adaptei para o brinquedo. Coube perfeitamente e também nunca perdemos nenhuma pecinha.


Não é preciso gastar com material específico para organização. Procure em sua cozinha potes e caixas que possam ser reutilizados e que sejam fáceis da criança manusear.
Imagem Dulci Dantas 


No aniversário de um ano, Melina ganhou uma coleção de mini-Peppas. Depois ganhou 2 playmobils com um cachorro, um urso da Lego, um cachorrinho da Patrulha Canina e um minipônei. Essa coleção de miniaturas é um xodó, que sempre gera briga entre as amigas quando vêm aqui em casa, porque todo mundo quer brincar com eles. Crianças adoram esses bonequinhos pequenos, tão fofos e perfeitos para serem espalhados e perdidos pela casa. Sendo assim, colocamos todos eles dentro de um pote de pipocas, que Melina pegou em uma festa de aniversário e nunca mais devolveu. É o pote mais simples do mundo, a disposição em qualquer supermercado, cheio de milho para fazer pipoca. Mas que funcionou perfeitamente. Quando eu peço a ela para guardar os amigos, ela pega o pote e brinca de jogar um por um lá dentro e, depois, fechar a tampa de rosca.  


Dê a cada brinquedo ou material a sua importância, reservando para cada um deles um espaço e um recipiente específico. Isso ensina a criança a ter cuidado com seus pertences.
Imagem Dulci Dantas


E como toda criança ama desenhar e colorir, naturalmente foram surgindo lápis de cor e giz de cera , vindos de todas as partes. No começo, os lápis apareciam nos mais variados cantos da casa, e sempre que ela queria uma cor e esta estava desaparecida, era um chorôrô danado! Então coloquei a coleção de giz de cera gigante em um pote de sorvete, que ela consegue abrir com facilidade. E a de lápis de cor guardei em uma latinha. Originalmente comprada na Tok&Stok para guardar bolinhas de algodão. Usei pouquíssimo como porta-algodão, mas ficou perfeita como porta-lápis.


Cada coisa em seu lugar.
Imagem Dulci Dantas


Todos esses brinquedos ficam na estante baixa, ao alcance da Melina. É fácil de organizar porque, apesar de ter uma grande quantidade de peças e partes, eles se transformam em poucos volumes quando agrupados em suas caixas e potes. Eles não ficam sempre no mesmo lugar, na mesma ordem ou sequência, mas isso não importa. Mesmo trocando de lugar, fica sempre organizado, pois os brinquedos não se misturam. E, ainda que Melina decida espalhar todos os brinquedos pelo chão, de uma só vez, na hora de guardar é muito mais fácil e rápido, pois cada cada coisa tem o seu lugar definido e de fácil acesso.


O baú das tranqueiras. Ele pode existir, mas não precisa transformar o espaço em um caos.
Imagem Dulci Dantas


E por fim, a caixa de tranqueiras. Toda criança tem suas miudezas, uns brinquedinhos tranqueiras, brindes de festas, brindes de lanchonete e coisas desse tipo. Eles adoram essas coisas, e criam mil e uma brincadeiras com esses elementos. Daí porque mantenho vários deles, mas todos dentro de uma caixa, na verdade, um cesto da Tok&Stok que comprei especialmente para esse fim. O cesto não deixa a baguncinha aparente, ele fica como se fosse um gavetão. E ainda, dá um toque charmoso na estante. Prefiro a palha a um cesto plástico, por se tratar de uma fibra natural.

Tem dias que Melina vira o cesto de cabeça para baixo, coloca um guarnapo de mesa vermelho sobre ele e o arranjo vira a mesa do picnic ou a mesa do bolo de aniversário. Uma imaginação que não tem fim. 

Nestes quase três anos com criança em casa, observei que, com o espaço organizado, limpo e amplo (destralhado), a criança brinca livre e desfruta muito mais de seus brinquedos e fantasias.

13 de março de 2017

Lidando com imprevistos


Você sai de casa pela manhã e não faz idéia de que tem um imprevisto te esperando logo ali na frente.
Imagem sem referência.


Imprevistos ocorrem na vida de todos. Para aqueles que têm filhos, os imprevistos são tantos e com tamanha frequência, que já os levamos em consideração ao nos organizarmos no dia-a-dia. As frases abaixo, tão típicas de pais e mães, demonstram um modus operandi de vida onde o imprevisto já foi incorporado como parte do cotidiano.

"Eu vou levar uma ou duas roupas a mais porque se ocorrer um imprevisto..."
"Vou deixar uma porção de comida a mais congelada porque se acontecer qualquer coisa..."
"Melhor adiantar o trabalho porque se eu precisar me ausentar devido a algum imprevisto..."

Na semana passada, eu estava com uma agenda de trabalho e afazeres pronta para a sexta-feira. Eu deixaria a criança na escola, a empregada ficaria em casa fazendo faxina, eu teria duas horas de coffeeoffice onde eu terminaria de ler um artigo e trabalharia no rascunho de um texto, e teria mais duas horas para entrevistar uma amiga para, juntas, escrevermos um post para o Lar Dulci Lar. Ao terminar a entrevista eu buscaria a criança na escola e voltaria para organizar o jantar, banho, estória, beijo de boa noite e, finalmente, sono. Não rolou. Quarenta minutos depois de deixar minha filha na escola, a professora me ligou. Melina tinha sido picada por uma formiga e estava apresentando uma reação alérgica em todo o corpo. Interrompi o coffeeoffice, cancelei a entrevista, saí correndo, peguei a criança, levei no pronto-socorro, depois na farmácia e voltei para casa. Empregada fazendo faxina, criança querendo atenção e lanchinho, e eu com metade dos pensamentos nos compromissos que eu havia planejado, e outra metade tendo que lidar com as novas tarefas impostas pelo momento presente. 


Diante dos imprevistos, entregar-se ao presente é uma boa coisa a se fazer.
Imagem sem referência.



Se os imprevistos são certos, é possível se preparar ou precaver-se para que a sua chegada cause o menor dano possível na nossa vida? Como fazer para lidar bem com eles, minimizando seus impactos negativos sobre nosso cotidiano? É possível, ainda, abrir-se para as possibilidades positivas que eles podem trazer consigo? 


Diante do inesperado que nos tira do sério, repita comigo:
Hoje é um bom dia! Hoje é um bom dia! Hoje é um bom dia!

Imagem sem referência.


Diante de um imprevisto - um mal-estar que nos tira de cena, o cancelamento de um compromisso,  um cartão bloqueado, um filho doente, uma bagagem que não chegou em seu destino, uma batida de carro ou uma bateria arriada, um vôo cancelado por mal tempo - a primeira habilidade fundamental que nos é requisitada é a presença. Saber se desapegar do que estava planejado e habitar o momento presente em sua plenitude é essencial. Isso nos protege de uma atitude tóxica, que é a de ficarmos remoendo o que íamos fazer e que, de repente, ficou impossível. Imprevistos nos obrigam a este grande - e benéfico, acreditem - exercício emocional. Diante de um vôo cancelado não adianta xingar, praguejar e se desesperar. Se conseguimos nos colocar diante da nova situação, inteiros, certamente encontraremos uma solução, uma saída, uma nova rota a seguir. 

Voltando para o exemplo da minha última sexta-feira, de nada adiantaria reclamar ou ficar pensando no que eu tinha planejado fazer. Cancelada a entrevista para liberar minha amiga para outros compromissos, me despojei totalmente da agenda. Me dediquei a ficar com minha filha, ministrar os remédios, fazer lanchinho para nós duas, desenhar e aproveitar da melhor maneira possível a tarde que tínhamos juntas pela frente, com a empregada dentro de casa. Esse desapego não é automático, mas com a prática, vai ficando mais fácil.


A velha história do limão e da limonada. É clichê, mas vale a pena tentar.
Imagem Unsplash.


Ter uma administração doméstica organizada também ajuda bastante a minimizar os impactos negativos que os imprevistos podem causar na sua rotina. Já passei por imprevistos que deixaram um rastro de caos durante vários dias. Quer um exemplo? Basta ficar de cama por dois ou três dias com uma virose forte, e a casa vira um pandemônio. Já passou por algo assim? É horrível, e quando estamos nos sentindo um pouco melhor de saúde, ao invés de descansarmos para nos recuperar, precisamos cuidar da casa e pôr a vida em dia, exigindo ainda mais de nós mesmos.

Também no âmbito profissional, ser organizado, estar preparado para trabalhar a distância e saber delegar são competências que podem minimizar, e muito, o impacto negativo dos imprevistos. É possível reduzir o acúmulo de trabalho, não atrasar respostas e comunicações importantes e manter algumas atividades básicas fluindo.

No nosso mundo atual, é comum termos a falsa sensação de poder e de controle sobre nossas próprias vidas. Planejamos tudo de tal maneira, que não imaginamos ou não acreditamos que, de repente, podemos ser chamados a sair de cena, mesmo que a contragosto. Talvez, por isso, não costumamos nos preparar, nem nos precaver minimamente, na medida do possível, para lidar com os imprevistos. Sobretudo para quem tem pessoas e animais sob sua responsabilidade, esse é um bom tema para refletir.