19 de abril de 2017

Um bom lar para toda a vida


Imagem Dulci Dantas



"E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus."  
Fabrício Carpinejar em Todo filho é pai da morte de seu pai.



Em seu belo, porém atordoante texto Todo filho é pai da morte de seu pai, Fabrício Carpinejar abraça e revela um cenário que parece ser o cotidiano de um número cada vez maior de famílias: O envelhecimento dos pais. Depois que meu pai e meus sogros envelheceram, enfraqueceram, adoeceram e ficaram acamados, descobri que quase todo mundo tem uma história parecida para contar. E, após viver essa experiência três vezes - primeiro com minha sogra, meu pai e por último meu sogro - e depois de conversar com pessoas que viveram situações semelhantes, posso dizer que tive um aprendizado especial para a minha vida. Um deles foi sobre a importância de cuidar do nosso lar até o fim e, principalmente, para que possamos ter um bom fim. 

Quando nos casamos e constituímos uma família, a casa cheira a nova. Móveis novos, pintura nova, tapetes novos. Enxoval novo. A vida passa, as décadas voam e a casa se desgasta. É normal. Algumas pessoas tem espírito "zelador", como meu pai tinha. Zelador na profissão e também na sua vida doméstica, meu pai mantinha a casa sempre impecável. Pintava todos os cômodos a cada três anos. Mandava forrar sofás que rasgavam, consertar eletrodomésticos que pifavam ou substituía-os por novos. Não era rico - longe disso - mas era muito cuidadoso e amoroso com seus pertences. Eu costumava dizer que ele era o verdadeiro "dono de casa" da nossa família. 

Essa característica do meu pai garantiu a ele um final de vida com a melhor qualidade de cuidados e habitação possível. Meu pai morreu em casa, como era seu desejo. Já acamado, só saía de casa em cadeira de rodas. Mas seu quarto era impecável. Lençóis de cama sempre cheirosos e passados. Comida boa e caseira, feita na hora. Um banheiro sempre limpo e sem o menor traço de qualquer odor desagradável. Roupas limpas, cabelo lavado, bem penteado, unhas sempre cuidadas. Mas, uma boa parte dessa condição de vida com qualidade, apesar do estado de saúde debilitado devido a um AVC, se devem aos cuidados da família e as condições de moradia que possibilitavam que os cuidados fossem exercidos adequadamente. 

Mas, infelizmente, não acontece assim com todo mundo. Com o passar do tempo e o pesar da idade, muitas famílias vão deixando de lado pequenos reparos e cuidados com a casa. Acham difícil promover uma pintura nova, não atualizam os eletrodomésticos, vão se habituando a móveis e objetos quebrados e, assim, vão levando os dias. É mais comum do que se pode imaginar, encontrar idosos vivendo em residências absolutamente precárias.

É muito difícil para aqueles que não estão vivendo situações de cuidados especiais com idosos, imaginar o quão importante é ter uma casa em dia com sua infra-estrutura, mobiliário e objetos de uso diário. O envelhecimento dos nosso familiares nem sempre é percebido em um primeiro momento. Às vezes, levamos anos para entender e aceitar que nossos familiares, de fato, estão velhos e, em muitos aspectos, incapazes de realizar certas funções e tarefas. Há cinco anos atrás escrevi a este respeito no post A Vida em Transformação. Mas, quando nos deparamos com a necessidade de instalação de equipamentos médicos e cuidados em domicilio podemos ter um choque de realidade. Pois, muitas vezes, percebemos que a casa não está em condições plenas de operar com essa nova condição de vida. 


"Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?".  Fabrício Carpinejar em Todo filho é pai da morte de seu pai.


No que diz respeito ao lar e as condições de habitação, a instalação de um homecare exige um bom funcionamento e aparelhagem da cozinha, banheiros e área de serviço. Se a casa possui uma destas áreas em mau estado, os cuidados e o trabalho de familiares e profissionais, tais como acompanhantes, cuidadores e enfermeiros, ficarão prejudicados.  

Em primeiro lugar devemos fazer a seguinte avaliação geral: A casa está em condições de habitação segura, satisfatória e higiênica para o idoso e para empregados, acompanhantes e cuidadores? A seguir apresento requisitos básicos de alguns cômodos e aspectos da casa que devem ser observados e providenciados.

O banheiro.
Verifique se o aquecimento funciona, se há um bom volume de água nas torneiras e descargas. Providencie tapetes antiderrapantes. Veja se é necessário instalar barras de segurança dentro do box. Cortinas no box são perigosas pois são um falso ponto de apoio. Dependendo da condição de saúde, talvez seja necessário remover o box, para que a cadeira de banho possa ser movimentada dentro do banheiro.
Observe em que condições estão os objetos e produtos de toalete do idoso. Toalhas, pentes, tesouras, cortadores de unhas, lixas, barbeadores, secador de cabelo, saboneteira, shampoos, cremes hidratantes, cremes dentais. Na contratação de um cuidador, ele solicitará todos estes itens. Muitas vezes, os filhos precisam ir correndo na farmácia fazer uma compra de higiene básica para que o cuidador possa trabalhar, sobretudo quando os pais, muito velhinhos, moram sozinhos há muitos anos. 

A cozinha.
Verifique se a geladeira está em condições ideais de manter a comida preservada para que não haja  risco de contaminações. Para uma pessoa idosa ou doente, uma intoxicação alimentar pode ser fatal. É possível reservar uma prateleira da geladeira para a alimentação especial do idoso, evitando assim que potes sejam abertos ou mexidos por engano.
Verifique o estado geral do fogão, se todas as bocas funcionam. Forno de microondas e liquidificador são eletrodomésticos importantes para dietas líquidas ou sopas, muito frequente na dieta de idosos. Bem como uma boa e segura panela de pressão - justamente para cozinhar sopas com maior eficiência e rapidez. Um jogo de panelas básicas e alguns potes para armazenar comida na geladeira, preferencialmente de vidro, pois são mais fáceis de serem higienizados. Uma bandeja para alimentação na cama, se for o caso. Uma louça simples mas adequada ao tipo de alimentação que o estado de saúde exige, como um prato fundo para sopas, potes, canecas fáceis de ser seguradas por mãos frágeis e enfraquecidas. Guardanapos que possam servir de babador e jogos americanos são muito úteis.

Abastecimento de água.
Verifique a origem da água que se ingere na casa. Verifique se os filtros são limpos com frequência, ou os aparelhos onde são acondicionados garrafões. Estes últimos costumam acumular poeira no seu interior.
Uma moringa para água é essencial. Tenha uma daquelas cujo copo serve de tampa, mantendo a garrafa sempre fechada. São muito úteis para se deixar próximo ao idoso, pois nessa fase da vida é comum perder a sensibilidade para a sensação de sede. É preciso oferecer água com frequência, e com a garrafa por perto evita-se o esquecimento e a desidratação.

Área de serviço.
Um cômodo de extrema importância, pois com pessoas idosas ou doentes, sobretudo se acamadas, há uma rotina de faxina além de lavanderia e passadoria de lençóis, fronhas, todo tipo de toalhas e panos de limpeza. Por isso, tente manter a área de serviço destralhada, com espaço livre para trânsito e para um bom desempenho das tarefas necessárias.
Uma máquina de lavar roupas eficiente e em bom estado é imprescindível, bem como um varal e um tanque, este último para deixar roupas e panos de limpeza de molho. As vezes que presenciei o uso mais intenso de uma máquina de lavar roupas em uma casa coincidiram justamente com os extremos da vida: Com o nascimento de um bebê, e com uma pessoa idosa no fim da vida. Acreditem em mim.

O lixo.
Tenha de duas a três latas de lixo médias com tampa. Evite latas de lixo pequenas porque elas não dão conta do recado, além de deixar escapar odores desagradáveis e exigir que sejam trocadas várias vezes ao dia. Uma para o lixo orgânico da cozinha, outro para recicláveis e, se o idoso utilizar fraldas geriátricas, tenha uma lata de lixo somente para este fim, com sacos plásticos em tamanho suficiente para acondicioná-las, bem como lenços umedecidos, papel higiênico e demais materiais descartáveis utilizados para a higiene da pessoa.
Se houver utilização de material médico como sondas e seringas, por exemplo, é necessário um descarte especial. Informe-se como descartar esse material corretamente para não ocorrer contaminação e acidentes com as pessoas que manuseiam o lixo, como a própria família, a empregada ou diarista, os cuidadores e empregados do prédio e lixeiros.
E ainda, certifique-se de ter uma rotina eficiente de saída do lixo, para que não se transforme em um bota-fora contínuo durante o dia e a noite. 

A faxina.
Verifique o arsenal de faxina da casa. Vassouras, rodos, panos de chão, pás, baldes, bacias, prendedores de roupas e produtos de limpeza. A rotina de uma casa onde reside um idoso acamado não combina com sujeira nem desorganização. É preciso ter condições de realizar uma boa limpeza  na casa. 


Em suma, idosos deveriam residir em lares em boas condições de limpeza, infra-estrutura e funcionamento. Mas, infelizmente, nem sempre isso acontece. Muitos idosos passam a residir sozinhos, às vezes sem uma empregada ou diariarista sequer que os auxiliem com faxina e cuidados com a roupa. Nem sempre os filhos são tão presentes como gostariam ou deveriam, devido a atribulada vida de nossos tempos. Ou porque lidar com a velhice dos pais é muito difícil. Ou ainda, porque os pais são teimosos e não aceitam nenhum tipo de interferência na casa, o que é normal, uma forma de tentar manter a autoridade e poder sobre a própria vida até o último minuto possível. Por todos estes motivos, e outros tantos, a residência de pessoas idosas e suas condições de vida podem se tornar muito precárias na reta final, prejudicando enormemente a qualidade dos cuidados necessários. 

Que esta troca de experiência sirva de inspiração - e força - para aqueles que, nesse momento, trocaram de lugar com seus pais, sogros e avós. Aqueles que, sendo jovens, cuidarão de seus velhos. E que o lar continue sendo acolhedor e seguro em todas as fases da vida.



*Este post é dedicado com carinho para minha querida Lucie, meu amado pai Cesário, meu adorado sogro Stephan e meu tio Germano... pela riqueza da convivência e por terem proporcionado preciosas lições de vida até o último momento.



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