17 de abril de 2017

Sobre estar presente


Com Melina aprendi a ser presente.
Imagem Dulci Dantas


Um dos hábitos mentais que mais me rouba energia e me faz sofrer é a falta de presença. É como se meus pés ocupassem um lugar e a minha cabeça estivesse muito longe dali. Levou um bom tempo para eu perceber como minha mente sempre habitava um lugar diferente daquele que meu corpo ocupava espacialmente. Na verdade, foi graças a um outro ser humano que eu pude  perceber essa desconexão entre corpo (presente) e mente (ausente). Depois disso, constatei com muito choque que passei anos andando por aí sem sequer ver as pessoas que cruzavam meu caminho. 

Com a chegada de Melina em minha vida fui chamada a estar presente - de corpo, coração e mente - o tempo todo. No começo foi muito cansativo e desgastante. Minha mente queria sair correndo o tempo todo, mas meu corpo estava sendo convocado a desempenhar tarefas dentro de um raio muito curto e limitado. Eu, tão acostumada a viajar pelo mundo e com tantas distrações disponíveis para minha mente, estava agora enraizada em casa, com um bebê que solicitava toda minha atenção e foco, por nada menos do que vinte e quatro horas por dia. 

Certa vez, conversando com minha professora de yoga, comentei com ela que, apesar de não conseguir fazer a prática por causa da incompatibilidade de horários, nunca na vida eu tinha praticado o "estar no momento presente" com tanto afinco. 

O processo todo foi - e às vezes ainda é - muito doloroso, porém revelador. Consegui perceber que, parte dos devaneios da minha mente se deviam a cobranças que eu criei para minha própria vida. Se eu estava no fogão cozinhando, a minha cabeça saía correndo para um lugar imaginário onde eu deveria estar trabalhando e ganhando dinheiro, pois eu disse a mim mesma - e acreditei com firmeza - que isso era abandonar "tudo", minha carreira. Se eu estava na pracinha empurrando o balanço, minha cabeça começava a me atormentar porque eu não estava no salão fazendo as unhas, porque eu repetia para mim mesma, com insistência, que eu tinha que estar apresentável o tempo todo, para todos. E se eu estava trocando fraldas, dando banho, arrumando, lavando... minha mente me dizia que eu deveria estar lendo livros. E se eu estava acordada, ela me dizia que eu deveria estar dormindo. E quando eu me deitava para dormir, ela insistentemente me dizia que eu estava jogando tempo precioso fora, deveria ir para algum outro lugar, fazer alguma outra coisa. E assim era a todo instante, em cada lugar que eu punha meus pés, minha cabeça se recusava a aceitar e queria sair dali para outro canto.  


O céu que nos protege.
Imagem Dulci Dantas


Com o passar do tempo, ao longo de mais de dois anos de prática, aprendi a ficar onde meus pés estavam. E foi um assombro enorme, pois nesse dia eu vi o céu, árvores, nuvens, pessoas, "bons dias", uma cidade inteira. De repente uma vida que estava acontecendo ali, bem na minha frente, com olhos vivos e sorriso de dentes de leite. E eu, apesar de todas as infinitas possibilidades, lugares e informações acessíveis, estava apenas aonde meus pés se plantavam, respirando e vivendo. 


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