4 de março de 2017

Sobre livros e redescobertas


Antes de sair por aí consumindo e gastando mais dinheiro (que atualmente eu não tenho), 
decidi descobrir os tesouros enterrados no meu próprio jardim.
Ou melhor, empilhados na minha estante.
Imagem Dulci Dantas


Uma das minhas grandes paixões é a leitura. Apesar de não ter sido educada desde a mais tenra idade para desenvolver intimidade com livros, como hoje é comum com as crianças (e o vasto e diversificado mercado editorial infantil), o meu interesse pela leitura surgiu na universidade.

Durante a faculdade de Ciências Sociais na PUC Rio, eu desenvolvi o hábito da leitura de maneira intensa e destemida. Além da abundância de textos para o cotidiano das aulas, o conteúdo não era fácil. Com isso, perdi o medo de leituras volumosas, difíceis, herméticas. Já lá se vão duas décadas desse grande aprendizado, e a paixão ficou. 

Desde então me tornei não só leitora mas também uma consumidora voraz de livros. Um dos meus passatempos favoritos era percorrer estantes e mais estantes em livrarias. Folhear um livro aqui, ler a contracapa de outro acolá. Tomar um café. Voltar a percorrer as estantes. Sempre saía da livraria com um ou mais exemplares a tiracolo. Às vezes, deixava de comprar uma roupa, uma bolsa ou sapato por achar caro, mas acabava gastando a mesma soma de dinheiro em livros, virando a esquina. 

Ultimamente comprar livros não está muito atraente, do ponto de vista financeiro. Como ainda não me rendi aos leitores digitais - estou me inteirando do assunto - e ainda por cima saí do emprego, a compra indiscriminada de livros deixou de ser uma opção de passatempo para mim. 

No início deste ano, após o planejamento do orçamento para 2017, cheguei a conclusão de que teria que ser muito, mas muito criteriosa no que se referia a novas aquisições. Decidi então pôr em prática uma "medida de austeridade" que tem se revelado surpreendente. 

Decidi não comprar nenhum livro em 2017, salvo alguma exceção muito, muito, muito importante para o desenvolvimento de algum trabalho que eu esteja, porventura, realizando. Mas isso não significa parar de ler. Retirei todos os livros da minha estante e separei aproximadamente doze títulos que eu nunca li, que eu comecei a ler e não terminei, e uns dois ou três que eu já li mas que gostaria de reler. Percebi que eu tinha muitos livros não lidos na estante, todos frutos daquelas tardes deliciosas em livrarias e do meu consumo voraz. 

A experiência já valeu a pena. A simples atitude de retirar os livros, limpá-los e revê-los resultou em reencontros belíssimos e saudosos, como foi com o meu sempre adorado e preferido José Saramago. Reencontrei também Mario Benedetti e Hector Abad. Fiquei suspensa no ar ao rever Clarice Lispector. Percebi também que muitas coisas mudaram, inclusive eu mesma, minha vida, meus interesses. Fiz um bota-fora de títulos que já tiveram o seu momento e importância, mas que hoje não representam mais matéria de interesse para mim (em breve farei uma venda destes livros com o objetivo de adquirir um leitor digital). 

O mês de Janeiro passou como uma ventania. Dei início às minhas leituras em Fevereiro com A Caverna de José Saramago. Foi uma felicidade voltar a ler um autor que eu admiro tanto e que há tempos me aguardava na estante. O livro escolhido para este mês de Março, iniciado após o Carnaval e ainda com rastros de confete e purpurina pela casa, foi a biografia de Carmen Miranda, de autoria de Ruy Castro. Imaginem só, tamanha riqueza parada na estante, empoeirando, e eu gastando tempo e dinheiro em livrarias procurando novos títulos para satisfazer meus impulsos consumistas. 

Agora, a melhor estante de livros a percorrer é a da minha própria sala de estar. É uma sensação única descobrir tesouros enterrados no próprio jardim. 



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