8 de março de 2017

Reaprendendo o simples na cozinha


Pela volta da simplicidade na comida caseira, sem o excesso de opções e realçadores de sabor.
Imagem via Pinterest.



Cada vez mais ouço pessoas comentando que desenvolveram alergia e intolerância a diversas substâncias, como lactose, glúten, proteína do leite, etc, etc, etc. Parece até que explodiu uma  espécie de epidemia, sobretudo nas pessoas acima de sessenta anos e em crianças. Tenho um palpite de que o abandono da alimentação caseira, juntamente com o aumento de ingestão da comida industrializada e superprocessada nos conduziu a isto. 

Infelizmente, devido "a vida como ela é" atualmente, quase não comemos mais na nossa casa e, quando comemos, a comida raramente é preparada na nossa cozinha. Já vem pronta ou semi-pronta de algum outro lugar distante. É a comida congelada, industrializada, processada, ultra-processada, o delivery e o marmitex. Passei muitos anos da minha vida ingerindo esse tipo de comida. Eu não cozinhava absolutamente nada. Não almoçava em casa e jantava lanchinhos. Nem preciso dizer que, com a chegada de uma criança, esse esquema de alimentação mudou completamente. 

Tudo começou com as papinhas, que foi um verdadeiro pesadelo para mim. Eu, que nunca tinha manuseado uma panela de pressão, me vi desesperada diante do desafio de cozinhar o tal do músculo bovino para as papinhas. Quando eu compartilhava minha dificuldade, todo mundo me dizia que, com o tempo, ia melhorar e ficar mais fácil. Não ficou. Minha filha cresceu e passou a se alimentar de comida de gente - arroz, feijão, carne, frango, peixe, salada, legumes, suco de frutas, etc. O trabalho multiplicou. Precisei encarar a tarefa com determinação mas, confesso, não foi nada fácil para quem não sabia fazer um simples arroz branco sem olhar a receita (sério!). 


Retornar ao estilo de vida "feito em casa" não é simples,
em um mundo que nos obriga a ficar tantas horas no trabalho e no trânsito.
Depende da nossa força de vontade, determinação e coragem para empreender mudanças. 
Imagem sem referência.


Então comecei pelo começo. Pesquisei receitas bem básicas e caseiras, aquelas que nossas mães costumavam fazer para nós, quando crianças. Aprendi a cozinhar arroz branco, uma versão com legumes, feijão, macarrão, purê de batatas, frango ensopado com legumes, carne cozida, carne moída, uma receita de peixe. As vezes acrescento uma farofinha, uma couve refogada, um omelete, uma sopa ou uma salada, e um suco. E o mais importante: Aprendi a congelar corretamente as porções e montei um planejamento de cardápio semanal. Com isso, me livrei de ir para o fogão todos os dias, um ganho em tanto em tempo e em economia de ingredientes. 

Quando comento que almoçamos em casa todos os dias, muitas pessoas dizem que adorariam fazer o mesmo, mas que cozinhar dá muito trabalho e toma muito tempo. Então comecei a conversar com as pessoas sobre esse assunto, e fui descobrindo que estamos viciados em variedade e sabores exaltados - e algo me diz que a explosão de restaurantes a quilo tem algo a ver com isso. Temos a expectativa de viver "experiências gourmet" no dia-a-dia, o que exige mesmo muito tempo, conhecimento e trabalho.

Cozinhar uma alimentação básica nunca será como comer em restaurantes. Primeiro, os pratos nunca ficam tão charmosos e glamourosos como nas fotos que vemos nas redes sociais. Tudo é mais simples. Outro aspecto interessante, quando comecei a comer minha própria comida, percebi que o sabor não era tão acentuado como os que eu estava acostumada a comer em restaurantes. Então fui apurando temperos, dosando o sal, melhorando a qualidade dos ingredientes. Depois de um tempo comendo diariamente em casa, ao comer em um restaurante a quilo que eu ia com frequência antes da minha filha nascer, achei toda a comida com sabor muito forte, muito temperada e "pesada". Acendeu uma luz de alerta para mim! Eu havia mudado meu hábito alimentar, e minha percepção para os sabores estava mais apurada, mais sensível e sutil. 


No começo a comida caseira pode parecer sem sabor e simplezinha demais. Nada parecido com aquelas imagens gourmet que vemos nas redes sociais ou com o que encontramos nos restaurantes.
É que o nosso paladar e olhar desaprendeu o simples.
Imagem via Pinterest.

Desde então me esforço para fazer refeições mais simples - dentro e fora de casa, isto é, com menos opções, menos mistureba e mais foco. Se o prato é um peixe, uma carne ou frango, dois acompanhamentos estão de bom tamanho. Se o foco do prato é o arroz e o feijão, então tento não colocar nenhuma carne muito pesada. A gente não precisa de muito, a gente não precisa de tudo ao mesmo tempo. É possível ter uma alimentação gostosa com mais simplicidade e menos excessos. E pensar que isso está a sua disposição, bem ali na sua cozinha.



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