18 de março de 2017

Branco no preto


Não são luzes, são cabelos brancos!
Imagem Dulci Dantas


Está se tornando cada vez mais frequente. Pelo menos uma vez por semana eu sou abordada por uma mulher, curiosa para saber como eu fiz "esse efeito" no meu cabelo. Enquanto estou comprando algo ou pagando alguma coisa, percebo que a outra pessoa está olhando fixamente para o alto da minha cabeça com um ar intrigado e curioso. Quando levanto os olhos, e pego a pessoa no flagrante, ela se engasga, tenta disfarçar, mas a curiosidade é tanta que, invariavelmente, ela me pergunta: "Moça... isso no seu cabelo... ", e  fica sem saber como terminar a frase. Não sabe se pergunta se eu fiz luzes "brancas"? "Prateadas"? Ou se é cabelo branco natural. 

Então eu respondo com a maior naturalidade, "é cabelo branco mesmo". E sempre segue o comentário: "Mas ficou tão diferente! Tão bonito!". Algumas pessoas custam a entender o meu cabelo, porque ele é branco em duas mechas nas têmporas, e bem mesclado na parte de trás. Vai da raíz do cabelo até a ponta. A maioria de nós está acostumada a ver mulheres jovens e maduras de cabelos pintados, ou com a maldita raiz branca aparecendo apenas um ou dois centímetros. Somente as muito velhinhas costumam assumir seus cabelos, não mais grisalhos mas completamente brancos. Daí que ver um cabelo grisalho natural em uma mulher de quarenta e poucos anos confunde. Todo mundo acha que é produzido no salão. É que, na verdade, pouca gente viu um cabelo feminino grisalho natural. Mas até que enfim isso está mudando.

Outra coisa que chama a atenção das mulheres é o fato do meu cabelo ser grisalho e ainda ter brilho. Então eu digo a elas que não faço nenhum procedimento químico nos cabelos. Nunca fiz. Nem tintas, nem alisamentos. O resultado disso é que, aos quarenta e três anos de idade, a fibra do cabelo está bem preservada em espessura, brilho e movimento. Além de economizar (muito) dinheiro com pintura, retoque, hidratação e reconstituição da fibra capilar, há também o ganho de um cabelo saudável.


Quando mais grisalho fica, mais eu gosto. Estilo wild and free.
Imagem Dulci Dantas.


Meus primeiros fios brancos começaram a aparecer aos vinte e sete anos de idade. Como eram dois ou três, eu os arrancava. Daí surgiram mais. Eu arranquei também. E então eles começaram a aparecer com uma certa insistência e volume. Os cabelos que eu havia arrancado começaram a nascer espetados, aparecendo ainda mais. Eu já tinha entrado na casa dos trinta. Percebi que seria uma luta em vão. Meu pai e meu irmão mais velho já estavam bem grisalhos. Eu seria a próxima. Minha mãe sempre pintou o cabelo, e ainda pinta. Mas eu, que sempre tive a maior preguiça de ir a salões de beleza, evitei qualquer intervenção nos meus cabelos. 

O tempo foi passando, os cabelos foram ficando cada vez mais brancos e longos, misturando ao restante do cabelo que é de um castanho bem escuro, principalmente depois que me mudei do Rio para São Paulo, e reduzi a exposição ao sol. 



Não entendo quem pinta os cabelos brancos de loiro, como se a cor amarela fosse mais digna que a cor branca. No final todo mundo sabe que ali tem um cabelo branco pintado. Então qual é a idéia?
Imagem via Pinterest.

Aos poucos, fui refletindo sobre o assunto. Eu sempre gostei da cor dos meus cabelos, não conseguia me ver ruiva, nem loira, nem com luzes. Os cabeleireiros insistiam para que eu tonalizasse de castanho. Além da preguiça, eu achava os procedimentos caros demais, além de exigir uma vigilância e manutenção constante. E, a cada vez que eu me olhava no espelho, me achava mais e mais parecida com meu pai, e então descobri que eu gostava disso.

Comecei a observar que a maturidade e seus aspectos mais aparentes, sobretudo os cabelos brancos e as rugas, quando acolhidas com intenção e respeito, dão ao ser humano uma dignidade sutil e verdadeira. Passei então a gostar muito do meu cabelo. Talvez, ainda mais do que quando era uma adolescente com cabelão castanho de fazer inveja. Meu cabelo grisalho me conectava ao meu passado, através de meu pai, e a minha própria experiência de vida. Me sinto mais segura, autêntica e confortável com ele, muito mais do que se tivesse a última tendência em coloração. 

Durante os mais de dez anos que viajei com frequência para a Europa, observei que, por lá, os cabelos grisalhos são mais comuns em mulheres de todas as idades. E são lindos. Além de bem cuidados, eles se apresentam em cortes modernos e até bem ousados. 






Tive um chefe na área de Moda que se incomodava bastante com meus cabelos brancos, e sempre me perguntava se eu não tinha intenção de pintá-los. Algumas vezes ele tentou me intimidar, me chamando de "velhinha", achando que fazia graça. Uma dia eu respondi a ele que não tinha intenção de pintar, e que eu não tinha medo de ficar velha. Então o assunto morreu, para meu sossego. 

Muitas mulheres ainda tem resistência a assumir seus cabelos grisalhos, porque se construiu uma idéia de que deixar os cabelos brancos é sinal de desleixo. Bem, essa é uma idéia incutida nas mulheres, e que presta um grande serviço a bilionária indústria da beleza e estética. Qualquer que seja a cor do cabelo, se ele é lavado, hidratado, bem cortado e arrumado, não tem absolutamente nada de desleixado, mesmo sendo branco. 

O culto a juventude eterna parece não ter fim, mas algumas pessoas já estão se cansando de correr contra o tempo. É como correr encima de uma esteira. Você fica exausto, mas nunca chega a lugar nenhum. Aceitar as impressões do tempo e da experiência de vida no próprio corpo é uma forma de dizer "sim" a si mesmo, e de cultivar o amor próprio sem preconceitos e, sobretudo, esteriótipos.


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