20 de abril de 2015

Terras imaginárias


Imagem via http://ignitelight.tumblr.com/


Eu fui do oito ao oitenta. Depois de vinte anos de dedicação exclusiva aos estudos e a carreira, agora estou exclusivamente dedicada à minha família, nossa casa e vida doméstica. Se está sendo fácil? Claro que não. Mas meus valores e crenças me dizem que esse momento de vida era necessário e que, no futuro, terei mais gratidão a este momento do que sou capaz de imaginar hoje. Como tenho tanta certeza? Meu coração que falou. 

Sério, tenho pensando muito sobre esse viver nos extremos. Como se a vida fosse uma corda com duas pontas. Em um momento eu puxava de um lado, e agora puxo do outro. Ou como se a vida fosse dividida em duas terras diferentes, com uma ponte no meio. Ou você está de um lado ou do outro. Eu me pergunto: Porque não vivi as últimas duas décadas com um pouco mais de equlíbrio? Até agora encontrei três respostas somente:

Devido a origem humilde de minha família, fui educada pelos meus pais para estudar, estudar, estudar e "ser alguém" nesta vida. Com os estudos eu conseguiria uma vida melhor, melhor do que a luta diária na qual eles viviam, trabalhando muito, ganhando pouco, construindo sempre. Apesar da minha mãe me levar com ela no supermercado, me ensinar como se faziam as coisas dentro de casa, meu foco era estudar e trabalhar, pois sempre estudei & trabalhei

Devido ao fato de ter morado até os vinte e nove anos na moradia cedida pelo emprego do meu pai. Meu pai foi porteiro zelador em um edifício no Rio de Janeiro por mais de trinta anos. Cresci lá. Era a nossa casa, mas não era a nossa casa, entendem? A gente não podia reformar nem mexer muito nas coisas. Além disso, o sonho dos meus pais era a casa própria. Acho que isso impediu que nos apropriássemos daquele espaço (ainda que temporariamente). Talvez por isso eu tenha crescido sem um vínculo (ou intimidade) com decoração, apropriação e organização dos espaços. Apesar de morar naquela casa, eu precisava estudar e trabalhar para poder sair dali.

Quando meu pai se aposentou e minha família se mudou para a sonhada casa própria que virou realidade, eu não os acompanhei. Eu estava iniciando a minha carreira em Moda. Meus pais se mudaram para o nordeste e eu fiquei no Rio, viajando pelo Brasil a trabalho. Eu tinha trinta anos de idade. Dali em diante começaram as minhas andanças e viagens para trabalhar. Por mais de dez anos eu trabalhei em cidades diferentes da qual eu residia. Eu passava a maior parte do meu tempo em hotéis (por isso gosto tanto do filme Amor sem escalas). Na minha casa, no apartamento alugado que eu tinha no Rio eu só ia trocar a mala, passar uma semana ou final de semana, e embarcar novamente. Até depois de casada, morando em São José dos Campos, eu viajava para trabalhar em Santa Catarina (novamente morando em hotéis durante a semana) ou para São Paulo e pelo mundo. Sempre trabalho, trabalho, trabalho. 

Eu não cozinhava, salvo raras exceções nos finais de semana. Uma macarronada ou algo parecido. Eu não planejava compras de supermercado. Comprava frios, vinhos, comidinhas. Mas comprar arroz, feijão, saladas, frutas... tipo cesta básica? Não, nunca. Administrar a despensa? Não precisava. Se não tivesse comida, a gente saía para comer fora. 

Fazer da casa um espaço funcional e organizado, ao mesmo tempo aconchegante, agradável e criador de boas memórias? Não era assim que eu via meu espaço doméstico. Comprava coisas que eu achava bonitinhas - um edredon, um vasinho de planta, flores. Mas não era nada muito pensado. Nós estávamos em casa somente a noite. A diarista vinha, ia embora e a gente nem se via. Eu até gostava de decoração mas não sabia nem por onde começar. Foi daí que nasceu o blog, para reunir minhas pesquisas na internet sobre idéias legais para a casa. Mas a verdade é que eu não conseguia ir muito além disso. 

E, pelo que incrível que pareça, a casa sempre foi limpa e arrumada. Nunca vivemos na bagunça nem na sujeira. Mas eu não tinha intimidade com esse lado doméstico da vida. Com a chegada de Melina, veio a reforma do nosso apartamento, a pausa na minha carreira e a permanência diária dentro de casa. Senti que as coisas mudaram. Passei a organizar o dia-a-dia, planejar cardápios e as compras de supermercado (que agora, com os preços pela hora da morte, torna-se mais do que necessário), otimizei rotinas doméstcas. Encontro com a diarista duas vezes por semana. Deixou de ser diarista, tornou-se uma pessoa fundamental e parceira na nossa vida. 

Então estive refletindo a respeito desses extremos nos quais vivi. Acho que muita gente passa por isso. Dedica-se tanto ao trabalho que nunca teve tempo - ou vontade, foco ou necessidade - de saber cozinhar o próprio almoço. Aprender a pór uma mesa para que ou para quem? Criar rotinas para manter a casa funcionando e sob controle? Mais fácil deixar virar uma bagunça e depois tirar um final de semana para pôr tudo em ordem. Pior... Acredita-se que esse lado da vida é menor, menos valioso e menos interessante do que o lado "carreira-trabalho-emprego-dinheiro" da vida. 

Quando Melina nasceu, me conscientizei de que sou responsável por uma parte importante das memórias que ela terá de sua infância. Momentos, palavras, hábitos, cheiros, sabores da infância. Foi isso que me fez parar e me dedicar a construir um lar que fosse capaz de oferecer isso a ela. Se eu continuasse trabalhando, viajando e me ausentando como eu vinha fazendo antes dela nascer, eu não seria capaz de criar esse ambiente para ela e minha família. Abrir as janelas e dar bom dia sem pressa para o meu pinguinho de gente, que se espreguiça no berço. Cheiro de café e torrada pulando para despertar o dia. Cheirinho de refogado, mesa posta, um brinde para começar. Passeios no sol na pracinha. Um cochilo gostoso no meio da tarde. Um tapete aconchegante para rolar no meio das brincadeiras. Banho quentinho, pijama passado e cheiroso, colo de mãe para dormir.  Não temos pressa, não tenho que sair correndo para lugar algum. 

Tudo isso me faz pensar que, visando o melhor para o futuro dos filhos, às vezes os pais enfatizam demais um único aspecto da vida, cobrando que se dediquem quase que exclusivamente a este aspecto e deixando os demais de lado. Nessa vida quase que unilateral, é difícil até ter maturidade emocional para lidar com certas questões que pertencem ao terreno externo ao mundo do trabalho. Percebo a importância de educar os filhos para o equilíbrio. 

Indo de uma ponta a outra, encontro-me agora em outro extremo. Como seu eu tivesse atravessado a ponte e chegado nessa outra terra "família-casa-vida doméstica". Continuo dedicada a um aspecto somente e percebo a importância crucial de começar a aproximar os meus mundos, antes imaginariamente distantes. O caminho do meio ainda é o grande desafio do meu viver.


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