28 de março de 2014

Uma ilha cercada de carros por todos os lados

Imagem: Dulci Dantas.


Eu decidi sair do trabalho meia hora mais cedo para não pegar muito trânsito na Marginal Tiête, de volta para casa. Eu trabalho em São Paulo mas moro em São José dos Campos. Levo, em média, uma hora e meia a duas horas para chegar em casa. Essa é a minha rotina todas as terças e quintas-feiras, quando trabalho presencialmente no escritório da empresa. 

Então ontem, ao invés das 18:00h resolvi sair as 17:30h. Já tinha terminado tudo que tinha me proposto a fazer. Ao pegar a Maginal Tiête achei estranho pois todas as vias estavam paradas. A local, a intermediária e até a expressa (que de expressa não tinha absolutamente nada, com veículos a 10km por hora). Decidi ficar na via local. Se arrependimento matasse...

A volta para casa levou três horas e meia. Virou, na verdade, um pesadelo. Para onde quer que eu olhasse eu só via carros e mais carros, muitos caminhões e dúzias de motoboys rasgando o trânsito por todos os lados. Ambulâncias, polícia e viaturas penitenciárias abriam espaço (onde não existia) entre os carros com suas sirenes ensurdecedoras. Respirei fundo e de repente me deu uma sensação angustiante e claustrofóbica. Pensei: "Meu Deus! Se acontece alguma coisa aqui comigo eu não tenho como sair daqui". Estava completamente trancada entre milhares de outros carros. Aos poucos fui me encaminhando para a via expressa, que parecia andar a 20km/h. Era o melhor que tínhamos. Duas horas depois de sair do trabalho, eu finalmente chegava na rodovia. Parei em um posto para comer e ir ao banheiro, pois ainda tinha mais uma hora de estrada pela frente, no mínimo. 

O dia de ontem me chateou além da conta. Já peguei engarrafamentos assim outras vezes. Já cheguei a levar quatro horas para chegar em casa, depois de um dia de trabalho. O que realmente fez com que eu me sentisse mal foi o seguinte pensamento: "Em que momento passamos a considerar essa mobilidade truncada algo normal no dia-a-dia das cidades e das pessoas? Como foi que conseguimos normalizar a insanidade em nossas vidas?". Claro que não tenho a resposta, mas me peguei bem no meio do redemoinho. 

Uma frase que ouço muito, de muitas pessoas, é "Ainda bem que você trabalha dois dias na semana né? Imagina se fosse todo dia!". Não consigo mesmo imaginar trabalhar todos os dias em uma outra cidade, que não seja a que eu resido, ainda mais sendo uma destas cidades São Paulo. É insanidade demais. E o pior, os "apenas" dois dias estão ficando inviáveis. O que era um sonho de flexibilidade vem se transformando pouco a pouco em tortura. É uma média de 5 horas de carro por dia de trabalho em condições ótimas. De ônibus não melhora, já fiz isso durante alguns anos, quando decidi enfim comprar um carro para ir trabalhar.

Imaginem quantas coisas poderiam ser feitas neste tempo gasto no trânsito. Imaginem que deserviço fazemos à nossa saúde ficando sentados todo esse tempo, mergulhados em pura tensão. 

Era uma vez o sonho de morar em São Paulo, eu o abandonei há alguns anos atrás. Hoje, vivendo em uma cidade menor percebo que há uma vida sutil e delicada, que requer tempo e sensibilidade, que em cidades grandes e velozes parece não ser possível. Fiquei triste, pois para mim isso é o retrato do desencantamento. 

Por uma vida mais equilibrada, menos insana, mais sensível e menos aglomerada.








Um comentário:

  1. Imagino o que você passa nesses dois dias. Não suporto trânsito parado. Moro em Campinas e a partir das 5:30 da tarde já está impossível andar pelas avenidas. Outro dia voltando do médico levei 1:50 para atravessar a cidade, fiquei exausta! Onde vamos parar? Bj

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