3 de maio de 2012

Uma contradição ambulante




Neste final de semana eu visitei blogs de alguns dos meus queridos seguidores, e li muitas coisas interessantes. Inclusive li o desabafo de uma blogueira que anda passando apuros por não conseguir dar conta da jornada "mulher-que-trabalha-cuida-da-casa-cozinha-lava-passa-malha-dá-banho-nos-cachorros"... etc. A mulher estava decepcionada com ela mesma porque estava sempre exausta e nunca conseguia ter tudo em dia e em ordem. Alguém aí já se sentiu assim? Alguma vez você se sentiu uma mulher incompetente por não dar conta de tudo que há para se fazer nesta vida? Eu já. Alguma vez tentaram  fazer com que você (uma profissional que batalhou anos para conquistar seu lugar no mundo do trabalho) se sentisse diminuída por não saber "fritar um ovo"? Já tentaram comigo. Bom, eu acho que muita gente já passou por isso.

Então, ao invés de mostrar imagens de casas lindas, super produzidas, impecáveis (e que às vezes nem mora ninguém pois não passam de simples produção fotográfica para revistas de decoração), resolvi escrever sobre uma contradição ambulante na qual nos tornamos: Excelência profissional X Virtudes domésticas.

Eu, assim como muitas da mesma geração na casa dos 30 e poucos anos, fui criada, educada e (por que não) adestrada para ter uma carreira profissional longe do ambiente doméstico. Tenho uma memória muito nítida da minha mãe se divindindo entre a máquina de costura e a casa (fogão, máquina de lavar, tábua de passar, vassoura, marido, etc) enquanto eu criava raízes profundas na minha escrivaninha, estudando horas infindáveis. Comecei a trabalhar cedo, e estagiei durante todos os anos da faculdade e do curso técnico, que fiz posteriormente. O discurso da minha família para mim sempre foi: "Estudar para progredir e ser alguém nesta vida". Pois bem. Assim foi. 

Hoje em dia, marido e eu moramos sozinhos e cuidamos bem de nossa rotina doméstica, com a ajuda (Amém!) de uma diarista que, uma vez por semana, faz a faxina mais pesada. Mas nós mesmos lavamos a roupa, a louça, tentamos manter tudo mais ou menos arrumado e limpo. A minha roupa eu mesma passo, pois medito enquanto aliso os tecidos. É verdade! A minha mente se esvazia completamentamente diante de uma tábua de passar roupa. Mesmo assim, é comum pintar uma baguncinha. Às vezes a geladeira não está tão abastecida como gostaríamos. 

Certa vez uma amiga, sabendo que só trabalho no escritório duas vezes por semana, me perguntou porque não cozinho almoço em casa. Simplesmente porque não me ocorre a possibilidade de abrir mão das minhas atividades paralelas que faço em casa (como inglês, blog, academia, etc.) para cozinhar, sabendo que existe um restaurante a quilo bem caseiro na minha esquina, e baratinho. Cozinhar em um final de semana, aí sim. Mas incorporar essa rotina... Fui treinada para outras coisas e passei a não me envergonhar por isso, ou me sentir culpada.

Já tive várias crises por este motivo, achando que não sou nem um décimo da mulher que era (é) minha mãe, que cozinhava, lavava, trabalhava, cuidava dos filhos, do marido, do mundo todo. Mas hoje eu me pergunto: Como ela foi educada? Como ela me educou? Passamos mais de duas décadas da nossa vida direcionadas para um objetivo profissional e depois nos culpamos por não saber cuidar de um jardim, cozinhar uma feijoada ou passar roupa? Sério? 

A vida é um equílibrio entre as nossas diversas facetas, mas nem sempre isso é fácil. Ninguém, durante nossa educação a la Legião Urbana "você tem que passar no vestibular", lembrou de nos ensinar também como equilibrar e desfrutar dos outros aspectos da vida. Portanto, sejamos razoáveis e vivamos com menos culpa. Ao invés de nos cobrarmos tanto, o melhor a fazer é diminuirmos nossas expectativas. Dividir as atividades com o marido, fantasiar menos a vida ideal, a esposa ideal, pedir ajuda a alguém ou pagar sim uma empregada ou diarista, ou comer no restaurante da esquina. Recrie sua vida e suas regras domésticas de acordo com a sua realidade e possibilidade. Se você gosta de cozinhar, assim como eu passo roupa meditando, assuma esta tarefa com alegria. Mas não faça da sua vida doméstica um critério de avaliação pessoal para o qual você nunca se preparou, simplesmente porque esta não era a sua prioridade até então. 



5 comentários:

  1. Adorei o texto, mas hoje vivo totalmente o contrário, comecei a trabalhar cedo (15 anos) em um banco, estudei, terminei um MBA e hoje me vejo em casa, fazendo trabalhos manuais (que amo), cuidando de filhos, marido, jardim e tudo mais que aparece. Completa não estou, mas tudo na vida tem seu tempo e ainda tenho que escutar de algumas pessoas: Vc estudou tanto pra ficar em casa à toa (não tenho empregada, nem diarista). Deixa a vida me levar...
    Boa Noite e bjos

    Gláucia

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    1. Oi Gláucia! Adorei seu comentário. Se a gente trabalha muito nos criticam de workaholic, se decidimos nos dedicar a casa e familia nos criticam de "a toa". É preciso respirar fundo e ser feliz ao nosso modo. Boa sorte naquilo que vc escolheu e no que a vida lhe trouxer!

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  2. Perfeito!!! É isso aí, viver com menos culpa!!!

    :)

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  3. Obrigada! Era tudo o que eu estava precisando ouvir...

    Déborah Amaral

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  4. Oi! Acho que praticamente todas as mulheres ditas modernas se identificam com seu texto, independente se ela passa o dia tomando conta da casa ou fora dela, somos todas acumuladoras de tarefas e nesse processo é inevitável o surgimento da culpa por alguma coisa... eu, às vezes, me sinto culpada por conseguir umas horinhas de folga à tarde durante a semana, enquanto o maridão trabalha.
    Enfim, a vida é assim, o jeito é tentar buscar o equilíbrio e sorrir, assim tudo fica menos pesado e ganha um toque de diversão!
    Bjs

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